“Ô garoto presta atenção em mim !”
“Ei menina vira para a frente e presta atenção aqui!”
Frases como estas são muito comuns de serem ditas por pais, mães, professores e professoras, mas o que queremos dizer com isso? Por que precisamos pedir esse tipo de coisa às crianças e adolescentes?
POR QUE OS ALUNOS NÃO CONSEGUEM SE CONCENTRAR?
Concentrar é prestar atenção. O psicólogo Estadunidense Willian James define atenção como a tomada de posse, de forma clara, pela mente de um dentre vários objetos ou pensamento. Isto é, a atenção é responsável por escolhermos um dentre vários estímulos.
Do ponto de vista neurobiológico, é alocar recursos para atividades ou objetos de forma específica, uma vez que é necessário um investimento cognitivo.
Em estudos clássicos sobre atenção, pesquisadores como Gonçalves e Melo exploram uma organização conceitual que já vinha sendo discutida anteriormente por Nahas. De maneira introdutória, essa abordagem propõe que a atenção pode ser compreendida a partir de três tipos principais, o que ajuda a entender como nosso foco se organiza diante dos diferentes estímulos do ambiente:
Atenção seletiva, que possibilita direcionar atenção a um estímulo em detrimento a vários outros, aqui fica evidente que pedir a um(a) aluno(a) para prestar atenção é pedir para ele(a) deixar de prestar atenção em uma gama muito maior de estímulos.
Atenção dividida (ou compartilhada) é aquela que permite executar duas ou mais tarefas, ou selecionar dois ou mais estímulos simultamente. Embora no processamento da informação os estímulos não sejam atendidos exatamente juntos e embora ainda haja discussão sobre aspectos técnicos do seu funcionamento, pessoas com uma atenção dividida desenvolvida conseguem lidar com estímulos simultâneos.
Atenção sustentada e aqui está a concentração que você busca dos seus alunos e alunas. É a que permite se manter em estado de alerta durante um tempo prolongado processando estímulos ou até aguardando comandos em prontidão. Então assistir uma aula requer atenção sustentada.
Sendo assim ao surgir a necessidade de “chamar a atenção” ou “pedir a atenção” dos alunos e alunas é um claro indício que eles não estão sustentando sua atenção naquela atividade cognitiva que é a sua aula. Para reverter isso, entretanto, é necessário que ele decida prestar tenção, essa decisão ocorre, neuroanatomicamente falando, no córtex pré-frontal nas funções executivas e aqui há um empasse, pois neurobiologicamente essa região do cérebro ainda não está madura na adolescência logo as funções e habilidades decorrentes dela estão comprometidas. Ou seja, não se pode contar com a tomada de decisão espontânea desse aluno ou dessa aluna.
Então parece se apresentar diante do professor um beco sem saída, pois os alunos não conseguem decidir selecionar o estímulo que estou produzindo, que é a minha aula e, portanto, não conseguem sustentar a atenção nela e para piorar ele ainda não está completamente maduro para decidir me dar atenção mesmo a contra gosto, porque precisa.
A boa notícia é que Vitor da Fonseca classifica e agrupa as funções complexas superiores apresentando um conceito novo chamado de tríade neurofuncional da aprendizagem humana. Segundo ele a Tríade é constituída pelas funções executivas, as quais compreendem a flexibilidade cognitiva, a estratégia, o planejamento, a memória de trabalho e o controle inibitório, este é o que poderia fazer seus alunos escolherem te dar atenção mesmo quando não sentissem desejo de fazê-lo. Essas funções se localizam no córtex pré-frontal e já foi mencionado não estar maduro na adolescência.
Também há as funções cognitivas e destas faz parte a atenção, embora ela tenha uma relação muito estreita com as funções executivas até mesmo por não acontecerem em uma região específica do cérebro sendo, antes, por focos em vária regiões do cérebro.
E ainda as funções conativas, estas estão relacionadas à motivação, ao desejo, às emoções estando localizadas no que Fonseca chama de córtex afetivo se referindo ao sistema límbico.
Aqui o neurotransmissor dopamina tem um papel fundamental, pois quando se realiza uma tarefa na qual se investiu muito esforço e dedicação a liberação desse neurotransmissor desencadeia uma sensação prazerosa experimentada no corpo todo, ativando o circuito da recompensa em alguma intensidade, isto é, o cérebro entende que para sentir novamente aquela sensação você deve repetir o feito, então é acionado o circuito da recompensa e a pessoa quer realizar tarefas daquela natureza para experimentar novamente aquela sensação.
Quando se forma uma memória afetiva das vezes que se experimentou tal sensação, ao se ouvir a proposta da atividade, mesmo antes de fazê-la, o circuito da recompensa é ativado previamente e a dopamina liberada antes de se começar a tarefa, neste momento seu aluno está motivado a fazer aquela atividade.
POR QUE MEUS ALUNOS NÃO SE CONCENTRAM?
Eles precisam selecionar sua atividade dentre os inúmeros estímulos concorrentes, usando para isso a atenção seletiva, e manter um nível de atenção nela, usando assim a atenção sustentada. Além da falta de estímulos para treinar essa atenção não se pode contar com a decisão deles por não estarem neurobiologicamente aptos a usarem como adultos.
Contudo se o professor tomar o caminho das funções conativas explorando a motivação via o circuito de recompensa, o sistema límbico “liga” a atenção seletiva e a sustentada. O comando e a decisão que deveriam vir do controle inibitório vêm da emoção nas funções conativas.
É preciso portanto conhecer os alunos para saber responder uma última pergunta: O QUE ATIVA O CIRCUITO DE RECOMPENSA DOS SEUS ALUNOS?
